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ENTREVISTA EXCLUSIVA COM OS PRESIDENTES DA ANDAP E SICAP

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EXCLUSIVO PARA O JORNAL BALCÃO AUTOMOTIVO, OS PRESIDENTES
RODRIGO CARNEIRO, DA ANDAP, E ALCIDES JOSÉ ACERBI NETO, DO SICAP

 

 

Até então presididas por um único profissional, ANDAP e SICAP, associação nacional e sindicato estadual das empresas de distribuição de autopeças, inovaram na última eleição de suas diretorias. Elas dividiram suas diretorias e elegeram dois presidentes, Rodrigo Carneiro, para ANDAP, e Alcides José Acerbi Neto, para o SICAP, respectivamente. Em entrevistas exclusivas para o jornal Balcão Automotivo, os dois presidentes apresentam propostas de trabalho focadas em oferecer mais serviços às empresas associadas, fortalecer a representatividade do setor de distribuição e colaborar de forma proativa para o desenvolvimento do aftermarket, juntamente com as outras entidades, dividindo cargos para multiplicar ações. 


BALCÃO AUTOMOTIVO: Agora, na presidência da ANDAP, quais os seus planos para o crescimento da entidade? 
RODRIGO CARNEIRO: Olha, a rigor não muda muita coisa porque já trabalho na ANDAP há quase 20 anos. Então, não posso agora oferecer uma participação distinta daquilo que eu vinha fazendo. De qualquer maneira, tem uma proposta, sim, que é basicamente revitalizar a ANDAP, e fazer com que a entidade passe a ser, de fato, um grande centro de discussão, fundamentado em pilares. Um deles é Relações Institucionais. Precisamos universalizar o relacionamento institucional da ANDAP com entidades correlatas no aftermarket aqui no Brasil, na América do Sul, América do Norte e Europa. A Ásia ainda é um mercado distante, não fisicamente falando, mas não temos nenhuma intimidade. Faz todo sentido estender a participação da ANDAP e também  do SICAP, e vamos trabalhar juntos para termos mais discussão sobre os destinos do aftermarket.
BA: Quais são os outros pilares?
RC: Uma segunda ação é transformar a ANDAP, dinamizar a parte de serviços para os associados, tanto distribuidores quanto fabricantes de autopeças. Como entidade, precisamos nos voltar ao aperfeiçoamento de serviços e à parte mais tecnológica, e esse será um dos grandes suportes da ANDAP. Queremos desenvolver e discutir a tecnologia de gestão. Acho que precisamos fortalecer esse pilar e esse fundamento da entidade para que ela tenha mais sentido para os seus associados.
BA: A separação com o SICAP, é para dinamizar?
RC: Por vezes até incorremos em conflitos porque a ANDAP é uma entidade nacional e o SICAP é uma entidade estadual. Mas não estamos separados de fato. 95% das nossas ações continuarão sendo em conjunto. Compartilhamos espaço, datas, reuniões de diretoria, que serão únicas para ambas. Eventualmente, algumas missões cabem à ANDAP e outras ao SICAP, e trabalharei no sentido de fazer isso de forma extremamente harmoniosa e produtiva. 
BA: Isso dá mais agilidade para as duas diretorias? 
RC: O mundo está muito complicado. Todos nós representamos as nossas empresas, onde temos uma atividade, e temos baixíssima disponibilidade. Com a unificação das reuniões ganhamos um pouco mais de disponibilidade. Ao nos dividirmos, atuamos mais eficazmente naqueles temas que são comuns, entidade, aí sim a divisão multiplica porque multiplicamos o espaço e a capacidade de atuar nas diversas frentes. 
BA: São diretorias distintas? 
RC: Não, a diretoria é quase que a mesma. Muda um ou outro diretor porque o sindicato patronal é estadual e a associação é nacional. Naturalmente tenho diretores fora de São Paulo que não têm nada a ver com o SICAP. Assim, nossa atuação fica mais produtiva e otimizada. Não gosto muito da divisão porque acho que divisão sempre diminui. Neste caso especificamente, a divisão vai multiplicar porque temos duas pessoas com a mesma diretoria, basicamente, atuando nas mais diferentes frentes. E acho que o Neto (Alcides José Acerbi Neto, presidente do SICAP) é muito vocacionado para trabalhar em conjunto, por isso não entendo que venhamos a ter qualquer grau de dificuldade, pelo contrário. 
BA: Como você está vendo o atual momento da ANDAP? Você encontrou a entidade numa situação legal? 
RC: O Renato (Renato Giannini, expresidente executivo da ANDAP) fez um trabalho belíssimo do ponto de vista administrativo e financeiro. A entidade hoje está sob absoluto controle, todas as suas despesas são transparentes. Aqui não existe, por parte de nenhum diretor, nem dos presidentes, nunca existiu e continuará não existindo, qualquer tipo de remuneração e ou representação. Não há nada que eu possa criticar, até porque era vice-presidente; não há nada que eu possa dizer que precisa mudar conquanto já fazia parte dessa diretoria. Tenho a minha visão de mercado, minha visão sobre metodologia de trabalho e a minha personalidade administrativa por formação acadêmica. Realmente acho que o momento da ANDAP, particularmente, é um momento que exige um posicionamento claro, um aprofundamento das discussões que dizem respeito aos assuntos do nosso segmento de negócio e à expansão do seu relacionamento. Acho que a ANDAP está muito limitada – e eu sou parte responsável por isso, não estou culpando terceiros porque sou tão responsável quanto o Renato ou qualquer outro diretor anterior – mas digamos que os temas mercadológicos e os temas político-institucionais ficaram relegados a um segundo plano, até porque essa difícil estrutura tributária do Brasil, particularmente São Paulo,
BA: Como profissional, você veio de outro segmento, ficou por muitos anos no Grupo Comolatti e agora está em outro distribuidor. O que você acha que, com esse seu conhecimento, pode agregar?
RC: O conhecimento nunca é suficientemente amplo para que você deixe de aprender. Não estou num momento de ensinar, estou num momento de aprender. O que aprendi no mercado financeiro – fiquei lá mais da metade da minha carreira – trouxe para a reposição, e nesse segmento de negócio aprendi muito no Grupo Comolatti, onde a experiência foi excepcional, de muito aprendizado. No distribuidor que estou agora (Barros Autopeças) também estou aprendendo muito e isso contribui para formular posicionamentos, para propor desenvolvimento de ações de mercado, ações institucionais, e fazer com que o nosso setor, de fato, seja entendido por toda sociedade econômica e até social como segmento de extrema importância. Não conheço nenhum outro país onde 80% da manutenção da frota seja feita pelo aftermarket, mas isso parece não ter a menor importância porque não soubemos dar essa importância até hoje. Acho que a principal missão é fazer com que a ANDAP e o negócio de distribuição sejam entendidos em toda comunidade econômica e social por sua grandeza e importância.
BA: Quais são os desafios para 2018 e o que você imagina para 2019? Se a inspeção técnica veicular entrar em vigor, vai fomentar o mercado, como também o projeto de lei que autoriza revisões fora da concessionária dentro do período de garantia?
RC: É muita coisa para discutir daqui para frente, pelo menos nos próximos quatro anos para os quais fui eleito. Primeiro, sobre o mercado, a reposição no Brasil não tem razões para reclamar da atividade econômica, principalmente no segmento de leves, porque a expansão da frota nos últimos anos, que passou a integrar o aftermarket, nos deu crescimento orgânico. Nem foram necessários grandes investimentos, pois, se a frota cresce, o setor também cresce. Se aproveitamos ou não na mesma intensidade é uma questão de competência. Muita coisa precisa ser feita no nosso segmento, de verdade. Você lembrou dois fenômenos da maior importância, a inspeção técnica veicular, que naturalmente, vamos tratar com o caráter devido porque promove, de fato, a geração de demanda. Claro, hoje no Brasil a manutenção preventiva fica relegada a segundo plano. A rigor se faz manutenção quando o carro quebra. A inspeção veicular indica, como já aconteceu aqui na cidade de São Paulo, um crescimento importante na geração de demanda, mas está vindo para resolver os problemas seríssimos da segurança veicular. São mais de 50 mil pessoas que morem no Brasil por acidentes de trânsito todo ano. É um problema da maior seriedade. O custo do Estado com o atendimento aos acidentes, custos de remoção, viários, de paralisação de vias importantes, enfim, todos os custos são excessivamente elevados e precisam ser tratados com a importância, seriedade e profundidade devidas. Teremos que trabalhar fortemente para que realmente aconteça. Temos de ser otimistas e realistas por saber que iremos enfrentar muitas dificuldades, como outros países que enfrentaram e conseguiram.
BA: A ANDAP já conseguiu algumas conquistas.
RC: Sim, provavelmente teremos ainda alguns anos de luta árdua, mas de forma articulada, serena, científica, técnica e persistente, vamos conseguir também.
BA: E a instabilidade política, ano de Copa do Mundo, você acha que pode prejudicar o crescimento do Brasil?
RC: Com a graça de Deus, a Copa não será no Brasil.
BA: E o Carnaval já acabou
RC: Carnaval acabou e os russos agora que se preocupem com os problemas da Copa do Mundo. Acho que o Brasil tem coisas mais importantes para resolver. Temos um cenário político muito tenso, delicado e complexo, por isso temos de estar atentos à participação consciente, serena e responsável dos cidadãos. Não adianta atribuir a responsabilidade dos acertos só ao Estado até porque o Estado representa o cidadão. Enquanto o cidadão não entender qual é o seu papel será difícil resolver algumas coisas. Por outro lado, acho que a economia deu alguns sinais de descolamento real da política. Entendo que um país com as dimensões, realidade econômica e potencial econômico do Brasil não está fadado a ter problemas econômicos, pelo contrário, temos uma economia naturalmente saudável, com mais de 200 milhões de consumidores, e como pode não dar certo? Temos petróleo, agricultura de ponta, minério para vender para o mundo inteiro, serviços, sistema financeiro bancário extremamente evoluído, então insisto, mais de 200 milhões de consumidores, no nosso caso uma frota importante, uma produção automobilística importante, portanto, se tivermos problemas econômicos é por absoluta incompetência de todos nós, do Estado e dos cidadãos.
BA: Fale da união do setor por meio do GMA. Qual a importância da congruência desses setores para o bem comum do aftermarket?
RC: Entendo que tudo ou quase tudo que se divide é menor. Infelizmente, esse cenário de multidivisão de papéis e entidades nos faz menores. Gostaria de posicionar a ANDAP como um grande centro de discussões, como já disse, do negócio de aftermarket, para que possamos ser ouvidos. É fundamental estabelecer relações próximas, articuladas e estratégicas com todas as entidades. Acho que, somados, temos chance de ser ouvidos. Se trabalharmos de forma independente, a chance é igual a zero. A ideia é cada vez mais nos aproximarmos das outras entidades e estabelecermos relações institucionais

 

 

BALCÃO AUTOMOTIVO: Qual o seu maior desafio à frente do SICAP?

ALCIDES JOSÉ ACERBI NETO: Acho que este é o ano mais desafiador que o SICAP já teve, em função da nova Lei Trabalhista, que alterou toda regra sindical. O SICAP não se preocupava em divulgar o que ele fazia, faz e ainda fará. O desafio é mostrar aos contribuintes o que era feito com os recursos dessa contribuição e como revertemos em prol de todo o mercado. Nosso trabalho em 2018 será, primeiro, mostrar todos os benefícios conseguidos ao longo dos anos e manter nossa estrutura atual. Este é o momento para o nosso sindicato permanecer forte, principalmente, para conseguir corrigir algumas distorções do passado. A nossa força política é muito diferente da força individual dos representados. Somos o elo entre as empresas e os diversos órgãos governamentais e sindicais. Temos representatividade e aceitação para defendermos os interesses do segmento. Imagine se cada empresa quiser falar com o secretário da Fazenda, fazer a sua própria negociação salarial, elaborar pesquisas setoriais, etc., individualmente, pensando só no seu interesse? É isso que o pessoal não está entendendo e temos este ano para batalhar em cima disso. O que me deixou muito tranquilo é que o SICAP é uma entidade que está extremamente organizada.
BA: Como você encontrou o SICAP?
NETO: A última gestão deixou tudo em perfeito estado e organizado. Mas o que vinha sendo feito foi pouco divulgado e isso precisamos modificar.
BA: Trabalho de divulgação?
NETO: Vamos modificar nossa estrutura de comunicação para divulgar o que estamos fazendo. Esse será o primeiro passo dessa nova fase do SICAP, que continuará fazendo o que já fazia, mas com uma divulgação melhor.
BA: Dê um exemplo do que pode ser divulgado.
NETO: O MVA – Margem de Valor Agregado. Anualmente participamos da pesquisa cujos resultados afetam todos os elos da cadeia de autopeças. É uma pesquisa cara que somos obrigados a fazer para apresentar à Secretaria da Fazenda. Contamos com o apoio do SINDIPEÇAS e SINCOPEÇAS para contratar um instituto de pesquisa que tenha credibilidade junto ao governo. Geralmente são escritórios renomados e eficientes que precisam ser contratados e exigem um alto investimento. Ninguém percebe que cada ponto percentual que você brigou para reduzir dá um efeito enorme ao longo do ano. Precisamos divulgar o quanto economizamos na redução de um ponto percentual no MVA. Precisamos divulgar o quanto reduzimos o MVA em relação ao valor pleiteado pelo governo. Quando dizem que aumentou um pouquinho, não percebem que era para ter aumentado muito mais. É isso que não divulgamos. Toda essa demanda, esforço, tempo e até a formação um grupo de trabalho que faz a coordenação e explanação da pesquisa para a Secretaria da Fazenda, defendendo os nossos interesses. E se você não tiver entidades com representatividade, isso vai correr solto, o número que o governo apresentar teremos de aceitar. O mesmo acontece com as Negociações Trabalhistas. Trabalhamos fortemente para finalizarmos as últimas negociações e já nos preparando para as próximas. Existe uma ideia equivocada de que não é mais necessária a participação do sindicato para negociar acordos coletivos e que tudo pode ser feito individualmente pelas empresas. Esse vai ser outro ponto que precisamos esclarecer e divulgar porque existe uma parte que é obrigatória e tem que ser feita pelo sindicato e outra que pode ser feita diretamente pela empresa. E todos acham que é só fazer por ela que está resolvido. Cabe a nós divulgar essas distorções, os impactos que vão gerar se não tivermos uma representatividade forte. É isso que estamos empenhados em fazer.
BA: Até então, ANDAP e SICAP atuavam juntos, e agora cada um tem seu presidente, o que mudou?
NETO: Praticamente, em nível de direção, pouco se mudou. Quase todos os membros da diretoria do SICAP participam da diretoria da ANDAP. A divisão foi de comum acordo e tem o objetivo de dar mais foco aos assuntos particulares de cada entidade. O SICAP é um sindicato constituído, com atuação no Estado de São Paulo. Já a ANDAP é uma Associação  com atuação Nacional. Com esta diferença, nem todos os assuntos são comuns. Portanto, o que mudou foi que agora cada presidente pode se dedicar a demandas, tratativas e representações distintas.
BA: Ganhar mais força?
NETO: Nossa ideia é ganhar força no sentido de representatividade. Estaremos presentes em mais situações que envolvem o nosso mercado e com mais condições de tratarmos assuntos simultâneos. Estamos juntos porque sou vice-presidente da ANDAP e o Rodrigo é vice-presidente do SICAP, o que facilita a nossa interação. Estamos dividindo, mas na verdade multiplicando. Devemos ter uma representação melhor de cada entidade. Esse foi o objetivo da divisão.
BA: Vamos falar um pouco de mercado. Como você vê o aftermarket, o que vai acontecer agora, eleição presidencial, Copa do Mundo, isso pode influenciar?
NETO: Como sempre, esses eventos acabam refletindo no nosso mercado. Mas esses reflexos geralmente são momentâneos. Quando falamos em eventos como Copa do Mundo e Carnaval, temos que entender que nem tudo para. Carros continuam a quebrar ou se acidentar nestas datas, mas a compra da peça ou o reparo acaba saindo um pouco do sincronismo, da rotina. O proprietário vai postergar o reparo para depois do evento ou, se gastou muito neste período, pode deixar para o mês seguinte. Ou seja, esses eventos pontuais não afetam o resultado anual do negócio. Já na questão das eleições sim, pode influenciar. Envolve política (isenções ou impostos) e liberação de verbas, que alteram com a circulação de dinheiro no setor e acaba por afetar a economia. No período eleitoral, historicamente a tendência é liberar mais verbas para movimentar a economia e isso reflete no segmento de autopeças positivamente. Ainda contamos para este ano com a recuperação das montadoras, que em 2017 apresentou melhora em seus números, que também contribui para a melhora da economia.
BA: Até de veículos pesados.

NETO: Até de pesados. Bateram recorde outro dia. Seja na produção de veículos, na venda para o mercado interno ou exportando, as montadoras e os fabricantes de autopeças têm obtido resultados melhores, se moldando à situação do setor. E é com este cenário de recuperação da indústria que estamos animados com o nosso aftermarket.
BA: Você projeta crescimento para o aftermarket?
NETO: Sempre fui otimista e nos baseamos pelo histórico. Também tenho empresa (Jahu Borrachas e Autopeças) e percebo que existem condições para melhorar. Todo setor se moldou, com outras linhas, outros produtos, outras formas de se comercializar, e com isso, o mercado vem crescendo. Claro que existem variações, uma empresa foi bem porque o segmento melhorou, outra porque ampliou a linha ou lançou um item diferenciado. Sempre vai ter aquele que vai vender mais. Acredito em crescimento para este ano entre 5 e 6%, que é um número confortável para ser atingido.
BA: Você sente que hoje tem muito mais marcas no mercado? Na sua empresa, você também incrementou o repertório?
NETO: Sempre fomos muito focados, especializados em borrachas, e hoje temos outras peças que ampliaram nossa comercialização. É uma estratégia. Todos nós do setor acabamos fazendo alguma coisa diferente para compensar uma eventual queda de receita ou aumento de concorrência. Por ainda ser um mercado que atraí investimentos, é normal termos novos distribuidores e novas marcas.
BA: Isso é animador.
NETO: É excelente. É o que dá vontade de continuar investindo, falando “vai melhorar, tem como melhorar muito mais”. É isso que vemos.
BA: Vemos que o papel da indústria e do distribuidor é investir e fomentar o mercado, mas nos outros dois elos da cadeia, o varejista e o reparador, o que falta para eles desenvolverem? Por que algumas indústrias já focam direto suas ações para o reparador, deixando o varejo de lado? O que seria um mundo ideal?
NETO: Cada um na sua função está perfeito. O mecânico precisa do varejo, que precisa do distribuidor, que precisa da fábrica. Cada um tem seu papel no setor. Disponibilizar o produto, fazer estoque regulador, fazer a logística, ter capilaridade, disponibilizar e aplicar. Passa por uma longa cadeia? Passa, mas é um processo natural e coerente. Ainda aposto nesse modelo de mercado. Está mudando? Óbvio que está. O que temos visto é o famoso omnichannel, o multicanal. Não significa que o distribuidor, varejo ou reparador vão sumir e a peça vai parar diretamente nas mãos do consumidor final, que irá aplicar a mesma em casa. Cada um vai ter seu nicho. O segmento se acomoda. Fala-se muito em internet e tudo mais, mas vemos que internet não é a solução para tudo. Um bom exemplo é a logística reversa, conhecida como devolução. Quando se estuda mais a fundo o canal de internet, percebe-se que ele não é tão lindo e maravilhoso como todo mundo pensa. Tem seus problemas como todo mercado. Acho que os nossos setores estão se mantendo e irão se moldar às várias formas de comercialização.
BA: No crescimento do comércio eletrônico, por exemplo, como fica a questão tributária se a peça é devolvida?
NETO: As questões tributárias referentes às devoluções são extremamente complexas e na maioria das vezes o vendedor acaba arcando com o prejuízo ou ficando com créditos tributários difíceis de realizar. Mas não é só isso, tem o custo dos Correios. A devolução é um dos fatores que freiam o crescimento do e-commerce e fazem com que se coloque uma margem maior para cobrir eventuais prejuízos. Este índice de devolução no comércio eletrônico é muito superior ao índice do comércio tradicional, as lojas físicas. Os principais motivos para este elevado índice de devolução é a aplicação incompleta do item no site, a desatenção do comprador (internauta) ou a má fé do mesmo. Vamos usar o exemplo da venda de uma lâmpada na internet. Uma lâmpada pode ter inúmeras especificações. Se o vendedor não informar no site se ela é 12V ou 24V, provavelmente o cliente vai comprar errado e devolver. Se ele discriminar, mas o cliente não percebeu a diferença, ele vai comprar errado e devolver. Se ele tiver dúvida, compra uma de cada e depois devolve a que não serviu. Ou, o internauta comprou a lâmpada certa, mas devolve porque achou depois outra mais barata. Quanto vai custar essa devolução da lâmpada? Valeu a pena? Esta facilidade para se devolver qualquer compra em até sete dias atrapalha vendedores de e-commerce. Quem for aproveitar o crescimento do comércio eletrônico tem que estar estruturado e preparado para estas situações.
BA: Como você vê a questão da inspeção técnica veicular?
NETO: Vejo com muito entusiasmo. A Inspeção Técnica Veicular não deveria ter acabado. Tinha distorções, é verdade, mas era mais fácil corrigir do que acabar com tudo. Não era apenas um custo a ser revisto para os proprietários de veículos. Ela trazia um conjunto de benefícios que não foram contemplados na época em que ela foi descontinuada. Espero que realmente volte em 2019. E não é pensando só no nosso mercado que eu espero que ela volte, mas também na qualidade de vida e segurança da população. Percebemos que perdemos muito com a falta da inspeção. Pessoas que tinham carros mais velhos ou antigos deixavam o carro em ordem para passar pela inspeção. Agora todo mundo relaxou e ninguém mais faz nada. Veículos desregulados que estão nas ruas, principalmente ônibus e caminhões, com fumaça para tudo que é lado e nós respiramos aquilo todo dia sem termos como nos defender. Veículos sem freios que causam acidentes, muitas vezes fatais. Veículos sem condições de trafegar seguramente, que quebram nas ruas e causam engarrafamentos enormes. A inspeção precisa voltar o quanto antes, corrigindo as distorções anteriores. Para o aftermarket, a inspeção gera uma demanda direcionada às peças de motores (inspeção) e segurança (freios). É por isso que acho que a volta da inspeção será positiva, pois, além de contribuir positivamente com o nosso setor, trará principalmente uma melhora na nossa qualidade de vida e mais segurança no trânsito. Estou esperançoso que volte logo, mas que também amplie a atuação para o País todo, e com uma boa estrutura de serviços. Ela é obrigatória na Europa e em muitos outros Países.
BA: Muitos reparadores investiram e perderam.
NETO: Infelizmente. Acabar com a inspeção foi realmente um retrocesso. Foi uma decisão precipitada. Era mais fácil ajustar o processo e corrigir as distorções.

 

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